Roberto Martins

3.5.09

Memórias de João Falcão; histórias da Bahia

No sofá de casa, João Falcão exibe novo livro de sua autoria


Tive a felicidade de encontrar João Falcão, 89 anos, por três oportunidades. Uma foi quando do lançamento do livro, “Não deixe essa chama se apagar”, no qual ele discorre sobre a história de resistência do Jornal da Bahia, do qual era diretor. As outras duas, quando fiz as entrevistas com ele, para escrever a monografia sobre as militâncias (política e cultural) de Aristeu Nogueira.

No hotel da Bahia a conversa foi rápida. João estava em noite de autógrafos. Apenas lhe fui apresentado através do amigo cordelista Antônio Carlos de Oliveira Barreto. Anotei o telefone dele, liguei e marquei uma entrevista.

Após a leitura de “O Partido Comunista que eu conheci – 20 anos de clandestinidade”, cheguei à casa de João Falcão, autor da obra, para a entrevista. Fui recebido de forma bastante cordial. Ele respondeu os questionamentos, relatou fatos e me presenteou com outro livro de sua autoria.

Na publicação “Giocondo Dias – A vida de um revolucionário”, encontrei informações sobre o PCB (Partido Comunista do Brasil) e, melhor ainda, uma breve descrição da fuga de Aristeu Nogueira para o Rio de Janeiro, quando do regime militar. A saga foi contada a João Falcão pelo próprio Aristeu em entrevista.

Após a leitura deste outro livro voltei à casa de João. Lembro-me do meu caráter empolgado nesses encontros. Sentia-me feliz por estar diante de um personagem vivo da história do Brasil. João Falcão, destacado integrante do Partido Comunista na Bahia, chegou a trabalhar como motorista de Luís Carlos Prestes, o legendário Cavaleiro da Esperança.

Outro dia, Claúdio Leal telefonou comunicando-me que João tinha lançado mais um livro. Em “A história da Revista Seiva” ele conta a trajetória de uma publicação baiana, dirigida por ele, que reunia texto de renomados intelectuais, desafiando a censura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Fiquei feliz. Certamente neste livro poderei colher mais alguma informação para acrescentar ao texto da monografia que escrevi. Afinal, além de Aristeu ter sido um dos colaboradores da Revista, ele foi sócio de Falcão na gráfica onde rodavam os exemplares. E, por ser um “homem muito oraganizado”, como bem lembra João Falcão, Aristeu era responsável por toda organização burocrática da gráfica.

Além disto, a leitura do livro é mais uma oportunidade para conhecer momentos importantes da história da Bahia. Ainda bem que João Falcão esta nos dando a oportunidade de compartilhar suas memórias.

Feliz dos homens que quando chegam à melhor idade tem boas histórias para contar. João Falcão é um deles.

Claúdio Leal entrevista João Falcão e Armênio Guedes

Por conta do lançamento do Livro “A história da Revista Seiva”, o amigo Claúdio Leal, Repórter de Terra Magazine, entrevistou João Falcão e Armênio Guedes.

Residindo hoje em São Paulo, Guedes foi companheiro de Falcão e de Aristeu Nogueira no Partido Comunista. Além de atuarem juntos no Partido, Armênio Guedes e Aristeu Nogueira, atuavam na mesma célula partidária e eram colegas de turma na Faculdade de Direito.

Leia entrevista -

Foto: Haroldo Abrantes – ag. A TARDE - tomada de “empréstimo” da notícia do A TARDE.

5.4.09

Banda de oportunidade

Usei o termo há um tempo para designar certo momento da Quântica. Os meninos haviam saído de Irará com a proposta de se tornar uma banda de pop-reggae.

Saíram, tentaram, andaram mundo, mas os acontecimentos não se deram conforme os seus desejos. Então, entraram no momento citado.

Sem alcançar as metas pretendidas passaram um período “atendendo à pedidos”. Se o contratante quisesse uma banda de axé, lá iam eles tocar axé. Se era época de São João; lá estavam tocando forró. E se a onda é salsa? Nada melhor do que se remeter ao semba de Angola, país africano onde passaram uma temporada.

Quântica tocando axé na Lavagem de Irará 2005
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O projeto Quântica não seguiu. Nem da forma inicialmente pensada, nem no modo “banda de oportunidade”. Houve quem apontasse a falta de identidade do grupo para com um gênero especifico como um dos motivos do insucesso. Não é novidade que, enquanto estrelas individuais, todos eles eram (e são) possuidores de talento indiscutível.
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A lembrança daquele momento da Quântica me vem agora, quando nos aproximamos dos festejos juninos. É incrível o que me aparece de “banda de oportunidade”. E, possa crer, aquele grupo de axé ou pagode do último verão também se tornará uma banda de forró.
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Claro, por mais que possam ter qualidade de músicos e o som possa agradar, soa algo de falso nesses grupos. Falta a identidade, a pegada, o traquejo com o gênero, o respeito ao próprio trabalho artístico (se é que se pode chamar assim).
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Grupos dessa natureza estão fadados ao desconhecimento. Provavelmente nunca serão reconhecidos como nada. Na ânsia de ser tudo; “nada” é o que eles acabam sendo.
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O que querem afinal?
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O que todos querem, acredito, é uma chance, uma ponta de aparição, uma banda de oportunidade. Pra mostrar a sua arte? Não. Pra ganhar dinheiro, um pouco de fama e entrar no showbusines, talvez. Há muito que música virou negócio por aqui.
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foto: "tomada de emprestimo" em www.irara.com

9.3.09

Salve-me Já!

O protesto cacafônico de Zé Américo

Socorro! Salvamento e proteção. A natureza pede socorro. As florestas necessitam serem salvas do desmatamento. As árvores, do campo e da cidade, clamam por proteção.

Em Irará também há consciência ecológica. Ainda que seja para uma minoria; mas há.

“Salve-me já!”. O Pedido apregoado na árvore parece um clamor dela própria. No entanto, trata-se de um alerta do Sr. José Américo. O “protesto” visa chamar atenção quanto ao padecimento de uma das grandes árvores da Praça Pedro Nogueira (Matriz).

A iniciativa lembra umas das ações do Greenpeace. Esta ONG (Organização Não Governamental) roda o mundo soltando balões, fazendo apitaços e colocando faixas, dentre tantas manifestações criativas. Recentemente, puseram uma faixa gigantesca, de alto à baixo, no Elevador Lacerda em Salvador, com vistas a provocar a discussão acerca do aquecimento Global.

Zé Américo fez uma ação menor. Sua placa não foi notícia no rádio ou na TV. Não lhe valeu a “Garota do Fantástico”. E, até onde sei, nem se quer uma linha em A Gazeta de Irará.

Apesar disto foi vista (oie eu aqui falando), um pouco comentada e até ridicularizada por alguns. Para mim, a atitude de Sr. José Américo foi tão válida e criativa quanto algumas ações do Greenpeace. Mais ainda, por ele ter me confessado ter consciência prévia da cacofonia que o texto da mensagem gera.

Dito desta forma, a duplicidade do protesto merece respaldo. Ao mesmo tempo Zé Américo alerta para o descaso ecológico e crítica o caso escatológico.

“Sanitário: sinal da civilização”

Pois sim. Não canso de citar o conterrâneo Tom Zé e algumas falas de suas entrevistas. Certa feita, ele disse ser “o vaso sanitário um dos sinais da civilização”. Penso que os sanitários públicos também devem ser.

Em Irará, Praça da Matriz, início do Século XXI, por volta do ano 2001 ou 2002. O então Prefeito Amaro Bispo (Marito), governando a cidade pela segunda vez, resolve fazer dois kiosques na Praça da Matriz.

Kioske envolta de árvore: crime ecológico?


Os bares são construídos em forma circular, em volta de duas das grandes árvores (seria a construção nociva à saúde das árvores?), ocupando assim dois dos quatro canteiros da praça.

Colocaram energia, bancos em volta, grades de proteção... mas, parece que esqueceram alguma coisa.

Bar funcionando sem sanitário? Pois sim. Em Irará tudo pode acontecer. E se Octávio Mangabeira dizia que quando se pensa no absurdo ele já aconteceu na Bahia; em Irará ele já virou foi tradição.

Em dezembro de 2004 encerrou-se o segundo governo de Amaro Bispo. E o sanitário dos Kiosques? Nada!

No ano de 2005 inicia-se o governo Juscelino Souza. Em 2008, termina os quatro anos do mandato de Juscelino. E o sanitário dos Kiosques? Nada!

Cerca de oito anos sem sanitários nos bares da Praça da Matriz. Sem ter onde derramar as sobras da cerveja consumida, os clientes dos kiosques vão dando “seus pulos”.

Árvores e muro da escola

As mulheres, quando necessitam urinar, vão à lanchonete de Gauchinho, em casa de algum amigo ou sei lá o que é que fazem. Já os homens, se valem do muro da escola Dr. Juliano Moreira ou das árvores em volta.

(Numa novela, o personagem Jorge Tadeu regava uma planta com sua urina. A árvore da novela cresceu. Já as da vida real, na Praça de Irará, parece não suportarem tanto regamento...)


Tronco corroído

É no muro da Dr. Escola Juliano Moreira e nas árvores da Praça da Matriz que a galera “mija”, “tira água do joelho”, “verte água”, “dá um mijão”... enfim. O sanitário improvisado é a céu aberto e sob os olhares atentos, ou não, de todos que passam.

O efeito da cerveja aumenta; a vergonha diminui. Os fieis da Igreja Católica, logo ao lado da Escola e quase em frente ao Kiosque; todos os transeuntes e os moradores da Praça. Todos eles sujeitos às cenas do “mijatório”.

Nas proximidades do “banheiro improvisado” fica o odor de urina. As pessoas começam a sinalizar que o muro da Escola pode estar condenado e as árvores, visivelmente, vem perdendo sua saúde desde a instalação dos quiosques na Praça.

A comunidade tem reclamado. O próprio Zé Américo, em anos passados, já havia publicado texto em A Gazeta de Irará, falando da situação. Pelo visto, ele é mesmo um Nogueira. Madeira resistente. E além do mais, é um brasileiro: “não desiste nunca”.

Num sábado, 03 de Janeiro de 2009, eu estava no Kioske, quando fui abordado por algumas pessoas que, sabendo da minha condição de participar do Governo Derivaldo (2009-2012), me indagaram sobre a questão do sanitário na Praça.

Alguns eram eleitores de Juscelino, mas, preferi não contrastar os quatro anos sem providências, com o apenas um dia útil (sexta-feira dia 02 janeiro) do governo que se iniciava. Ao contrário, me irmanei a eles: “to nessa luta com vocês”.

Algumas semanas depois, uma distinta dama da sociedade iraraense, também me fez o mesmo pedido: “meu filho, você que tem mais contato com o Prefeito, fale com ele. Aquele absurdo não pode continuar”.

"Sanitário pra Advogado"

Não continuar tendo problemas com sanitários era tudo que queria os produtores de uma badalada festa de camisa de Irará. A cada ano, o problema histórico da festa vem tentando ser sanado.

Na edição 2009 do evento, além dos sanitários da AABB, que não foram suficientes no ano anterior, eles instalaram sanitários químicos. Contudo, a problemática persistiu.

Os sanitários da AABB, reservado ao público masculino, não suportaram a demanda e nem o mau comportamento de alguns. Virou lamaçal e daí, já sabe. Reclamações.

Um dos foliões da festa não tardou a falar: “eu paguei, mereço um tratamento decente”. A crítica justa dele, com a expressão “eu paguei”, também reflete o comportamento típico de uma geração que foi mais preparada para ser consumidor do que para ser cidadão.

Pagou, tem de “brigar” pelo devido funcionamento. Ninguém pagou pelas árvores na Praça. Talvez por isso, ninguém tenha que brigar pela sobrevivência delas.

Outro folião da festa, também foi exigir seus direitos de consumidor. Neste caso, o interlocutor falou com mais propriedade. Faltou apenas citar números de leis, artigos ou incisos.

O rapaz chamou um dos Produtores da Festa e disse:

“velho arranje um lugar para eu ‘mijar’ aí. Eu sou um advogado. Não posso ‘mijar’ em qualquer canto”.

O Produtor apenas respondeu: “aqui todo mundo é igual”.

Sendo esses tipos que bastam tirar uma graduação em qualquer Faculdade e já sai achando-se os “doutores”, “raça superior”; bem que merecia uma resposta mais ampla. Pena que não teve.

Agora. Fico me questionando. Como séria uma sanitário de advogado? Será que seria personalizado? Como um “trono” em forma de Toga? Do jeito que temos visto o comportamento de alguns Juízes aí...

“É urgente é urjá”

Voltando ao assunto do sanitário público, já que a privada, digo, o privado não é um problema de todos, mas sim dos consumidores do evento, quero dizer da necessidade da providência dos sanitários na Praça da Matriz.

Passadas as agonias das festas de fevereiro, período no qual, instalou-se sanitários químicos na praça, embora alguns tenha se negado ao uso, coloquei o assunto em questão diretamente com o Prefeito.

A conversa ficou mais ampla. Derivaldo também pontuou necessidades de outras mudanças estruturais na Praça. Concordei e fiquei esperançoso. Entretanto, não deixei de pontuar a urgência de resolver a problemática da falta de sanitários.

Como diz a canção de Tom Zé, o caso dos sanitários “é urgente é urjá”.

Em sendo uma situação emergencial, não precisa fazer nada muito elaborado. Muito menos seria necessário colocar um “banheiro de advogado” na Praça.

Tenho certeza que, quanto antes o Prefeito Derivaldo resolver este caso, toda a gente iraraense, independente de quem tenha votado, vai gostar da atitude. E quem sabe até reserve uma salva de palmas pra ele.

“Só Jesus Cristo Salva”. E eu vou salvar este texto, pra ver o que o tempo vai me dizer.
Enquanto o tempo não diz, nós vamos pedindo por solução, pelos problemas ecológicos e pelos escatológicos. Pedindo socorro, clamando por ajuda: “Salve-me já”.

3.3.09

"Cócegas nas tradições"

O Departamento de Cultura na Jornada Pedagógica 2009

A cada ano o ciclo é renovado. Novo ano letivo, alunos em novas séries, outros em novas escolas. Os professores devem planejar o ano que se inicia. Re-encontro, conversas, considerações sobre as férias.

A Jornada Pedagógica é também o momento de avaliação de erros e acertos do ano anterior. Discussões de metas e perspectivas para o ano iniciante. Expectativas acerca do trabalho que estar por vir.

Em sendo o primeiro ano de um novo governo municipal, a curiosidade aumenta.

São inevitáveis as comparações. Corações acalorados pela disputa eleitoral. Facilmente se percebem conversas paralelas do tipo: “Fulana votou, beltrana é do contra”, ou então, “isso era melhor, aquilo era pior”. Avaliações sinceras ou apaixonadas, a depender da parcialidade ou da franqueza de quem faz o julgamento.

Talvez, não sei, um dos diferenciais a serem apontados na Jornada Pedagógica 2009 de Irará, esteja na participação do Departamento de Cultura. Isto para quem observou diferenças para além do tipo do lanche ou da água oferecida.

- “E o lugar da cultura na Jornada?” – Questiono a uma das organizadoras.

- “Não havíamos pensado... é que nunca teve... e...” - A resposta vem em tom de desculpas.

Não há porque se desculpar. Sabemos que um dos nossos maiores desafios é lutar contar a visão hegemônica relegada para a cultura no município.

- “Você não vai ornamentar o palco não? Isso é com o Departamento de Cultura” – Assim pergunta e afirma um colaborador, ironizando e mostrando a força do pensamento vigente.

Pois é. Nós limitamos apenas a disponibilizar as malhas que estavam esticadas no palco. Não assumimos o Departamento para coordenar equipe de decoração. Pensamos em um vôo mais alto.

Conseguido um espaço para a “fala da cultura” na Jornada. Sugerimos o tema: “Educação e Políticas Públicas para a Cultura”.


A fala

E lá vamos nós. Começo da tarde de segunda-feira, 09 de fevereiro. Uma platéia repleta de profissionais da educação. Primeiro solicitamos um sonoro “boa tare”, para espantar o sono causado pelo almoço. Iniciamos pedindo aquilo que os professores passarão o ano inteiro pedindo aos alunos: “um pouquinho de silêncio e atenção!”.

A fala é cheia de considerações sobre o tema. Usando alguns trechos do artigo “Casa da Cultura de Irará: pressupostos para uma política municipal de cultura
[1]”, evidenciamos algumas das nossas idéias. A sugestão é um trabalho conjunto entre Educação e Cultura no Município.

“Percebemos que a cultura tem sido afastada da educação”. Tai uma das considerações. As outras vão pelo mesmo caminho.

Os professores, conhecidos como “Os Senhores do Saber” são convocados a participarem de um trabalho na cultura que vise a qualidade de vida e a formação cultural da população iraraense. “Festa também é cultura, mas cultura não é só festa”.

De carona no conceito de “Cidadania Cultural” de Marilena Chauí falamos do direito que tem todo o cidadão, especialmente o cidadão em formação escolar, de acesso às culturas diversas.

Daí vem algumas idéias. “Temos de pensar em maneiras de realizar atividades lúdicas nas escolas, principalmente na zona rural, durante os fins semanas”. Afinal, na maior parte das comunidades, a escola é o único equipamento cultural existente (além dos bares, é claro).

E tem mais idéias. A afirmativa é confirmada através de posicionamento consensual. “Muitos de nossos alunos nunca foram a um teatro, a um cinema, a uma galeria”. Há quem diga ser, a quase totalidade.

Pois bem. O convite é feito. “Os professores precisam ser nossos parceiros nesta luta”. E se assim o são, é preciso dialogar mais de perto com eles.

O Diálogo

Termina o espaço reservado para falas. Depois da representação, do Departamento, ouvimos também os Professores Denílson Lima Santos (Poesia Negra em Sala de Aula: Uma Imagem de Liberdade) e Jucélia Bispo dos Santos (Saber local, Memória e Educação Quilombola em Irará –Bahia).

Vamos falar no cara a cara. Procuramos pela sala onde os professores vão planejar o ensino de artes. Encontramos, pedimos licença e entramos.

Agora falamos e ouvimos. Abordamos o ensino de arte e a arte-educação, a necessidade de variar entre as linguagens, a aproximação para o aluno entre o mundo artístico na sala de aula e na sua vivência.

Os professores, por sua vez, colocam na mesa algumas pontuações. A discriminação sofrida pela disciplina, a falta de material didático e também a ausência de mecanismos de qualificação para os educadores artísticos.

“Vamos pensar e trabalhar juntos”. Não há como prometer milagres, a luta é árdua e tudo que pudemos garantir foi empenho. Então, assumimos o compromisso de buscar pessoas para fazer um intercâmbio de aprendizado na área.

Dalí só voltaríamos à Jornada na quinta-feira. Logo chega o dia e, ainda no caminho, um comentário:

“Você não sabe o gás que a sua participação deu aos professores de arte”.

Diante desta fala de Marilda Ramos, Supervisora do Ensino Fudamental II, da Secretaria de Educação, ficamos agradecidos e conscientes do aumento da nossa responsabilidade.

A Participação

A temática da quinta-feira era a EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Antes das falas começarem, um presente. A apresentação do grupo de samba-reggae Purificaê (já chamado de O “Olodum de Irará”), com direito a participação especial de Faú (Zimbabwe).

Estávamos ali só para assistir, mas fomos convidados a participar das falas. E lá fomos nós outra vez. Novamente a cultura como foco das atenções e, agora, a sua relação com a alfabetização.

Impossível não lembrar Paulo Freire. E lá falamos dele. Comentamos também acerca do MCP (Movimento de Cultura Popular) e suas ações de alfabetização, realizadas no governo conduzido por Miguel Arraes em Pernambuco, deposto pelo golpe militar de 1964.

Lembramos de uma fala do Professor André Lemos, nos tempos das aulas de Comunicação e Tecnologia na Faculdade, e soltamos a paráfrase:

“Muito se fala em inclusão digital; mas a informática é um advento recente na história da humanidade. A escrita tem milhares de anos e ainda temos pessoas que não tem acesso a este mecanismo”.

Diante do índice alarmante de analfabetismo em Irará, em torno de 20%, conclamamos a amiga, professora, agora Secretária de Educação, Marize Batista:

“imagine que marco não séria se, ainda que não conseguíssemos zerar, chegássemos ao final desse mandato com índices ínfimos de analfabetismo em Irará?”.

A fala da Professora Cristina, coordenadora da EJA, nos mostrou várias iniciativas que já vem sendo adotadas no município. Casos interessantes de descoberta das letras.

As histórias eram diversas. Tinha o caso do Senhor que quis aprender a ler para não depender de ninguém lhe indicar o ônibus para chegar na casa do filho em Salvador.

E também a Senhora que, emocionada mostrou uma cicatriz nas costas, disse ter sido a marca de uma surra recebida para não “aprender a ler e escrever carta pro namorado”.

Casos de um trabalho que talvez a publicidade não tenha tido interesse em divulgar. Afinal, alfabetização não dá voto... Talvez até tire...

Em meio a tantas histórias, me vem à mente a idéia de uma forte campanha pela alfabetização. O Sonho de transformar Irará em referência na erradicação do analfabetismo.

Comento a idéia com Marize. Passo os rabiscos que fiz pra ela. A Secretária marca uma hora para que possamos conversar sobre o assunto.

As idéias

Após o termino da Jornada, já na Sexta-feira, vou ao Gabinete da Secretária de Educação. A conversa flui. Idéias são muitas. É preciso buscar apóio e exemplo em experiências bem sucedidas. Listamos alguns possíveis parceiros:

Instituto Paulo Freire; MOC (Movimento de Organização Comunitária); TOPA (todos pela alfabetização – Governo Estadual); MEC (Ministério da Educação); e, porque não?, MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), fazendo um estudo nas suas iniciativas educacionais.

Marize trás a constatação de que o primeiro passo é um mapeamento sério da realidade acerca do analfabetismo em Irará. De tal sorte, temos mesmo de fazer parcerias, levar a idéia a outros setores do governo e buscar recursos.

Percebo que a campanha só seria possível depois que todo um projeto de alfabetização estivesse pronto. Nada é fácil.

Não tenho certeza se conseguiremos. Ou se faremos o projeto e a campanha. A idéia é continuar lutando. É como falei para Marize, num determinado momento: “se não derrubarem a gente, ainda vamos fazer muitas cócegas nas tradições”.

Obs: O termo "fazendo cocegas nas tradições" é dito na canção Tatuarambá de Tom Zé.

[1] Artigo apresentado no I EBECULT (Encontro Baiano de Estudos da Cultura) acontecido na UFBA em Salvador, em Dezembro de 2008. – Em breve disponível nesse blog.

15.2.09

Sobre os Festejos Populares 2009*

Viva Irará re-viveu Lavagem do tempo do chitão

Agradecemos à população iraraense pelas várias manifestações de carinho e apoio que recebemos. Agradecemos pelas diversas mostras de felicitações e parabéns com relação aos Festejos Populares de Irará.

Somos gratos também pelas críticas. Ainda que algumas delas carreguem o fel da ironia, resquício de avaliações balizadas pelo calor da acirrada disputa eleitoral do ano passado.

Estamos tranqüilos. O trabalho realizado, apesar do pouquíssimo tempo disponível, agradou á maioria e esteve sintonizado com a Política Cultural a qual queremos propor à população iraraense (Política esta que não terá nas Festas sua principal preocupação, mas sim na qualidade de vida e formação cultural das pessoas).

Entre Noveneiras e Palco da Praça da Purificação diversificamos estilos. Investimos em estrutura de qualidade. Possibilitamos toda assistência ao trabalho da Polícia Militar. Divulgamos a Festa de Irará na nossa micro-região, com uma comunicação bela e muito bem apresentável.

Outdoor em Feira, BR 116 e BR 324. Panfletagem na Festa de Água Fria e na UEFS (segunda-feira do Vestibular). Carro-de-som e colagem de cartazes em Coração de Maria, Conceição do Jacuípe, Santa Barbara, Santanópolis Ouriçangas e Água Fria, também na sede e zona rural de Irará.

Investimos em uma reconhecida atração como âncora (Margareth Menezes). E trouxemos atrações deste verão (Adão Negro e Assombra – público jovem urbano / Pablo e Grupo Arrocha – sucesso em meios populares e zona rural). Valorizamos bandas locais, dando-lhes a mesma estrutura de som e palco recebida pelas atrações de fora.

O resultado mais satisfatório de todo o trabalho foi uma festa com grande índice de participação popular e alegria. Os iraraenses, os visitantes e os nossos irmãos que retornam à Irará nessa época, tomaram conta das ruas, mostrando que a Festa é do povo.

Daí, Festejos Populares de Irará. Da mesma forma como eram chamados noutros tempos. Festejos que não se limitam simplesmente à Lavagem. Vão desta, que é mais tradicional festa do povo de Irará, até o Cruzeiro, passando por outro tantos momentos, como no desfile do irreverente Bloco das Nigrinhas.

Tivemos desacertos. Entre os quais, consideramos os cometidos na Festa do Cruzeiro como os maiores. Agora, nos resta avaliar, aprender com os erros e trabalhar para que na Festa seguinte possamos fazer ainda mais e melhor.

Por fim. Agradecemos a Deus; à população iraraense; ao Prefeito Derivaldo Pinto, pela autonomia e confiança em nós depositada; à Vice, Professora Darci; ao amigo Edson Barbosa, aos Secretários do Governo: Marize Damiana – Educação; Paulo Dantas – Serviços Públicos; Reginaldo Campos – Desenvolvimento Econômico; Erinaldo - Finanças; Vital Bacelar – Saúde.

Agradecemos também a Jorge Nunes, Jean a toda equipe da Prefeitura; aos parceiros de Departamento de Cultura, a Kakal, Capita, Marcilio e Alessandra Doria, aos prestadores de Serviços, aos colaboradores e a todos que trabalharam, contribuíram e participaram desta festa.


Muito Obrigado!!

Vale também um agradecimento ao Movimento Viva Irará e sua representação do Cortejo da Lavagem como era antigamente. Com direito a saia de chitão e tudo!


Com relação a erros e críticas.

Tempo -

Como já publicado antes, fomos convidados a assumir o Departamento de Cultura no dia 17 de Dezembro de 2008. Em 14 dias planejamos a Festa, fizemos contatos e reuniões. Só podíamos falar e trabalhar como Departamento a partir de 02 de Janeiro, daí até o começo das Noveneiras (dia 24/02) foram 21 dias para organizar os Festejos. Sem contar a Festa de Brotas que aconteceu no dia 11 de Janeiro.

Palco

A entrada mais espaçosa na Praça da Purificação é pela rua Cel. Elpídio Nogueira. Pela mesma rua, com acesso até a Matriz, segue o circuito dos Festejos Populares. Sendo essa rua a entrada principal das Festas. Sempre achamos esquisito as pessoas entrarem e encontrarem o fundo como cenário. Por isso mudamos a localização do palco, deixando-o de frente para quem entrava na Praça.

Toldos

Foram disponibilizados na Praça a mesma quantidade de Toldos para Barracas de Bebida das Festas anteriores.

No projeto inicial os toldos estavam dispostos em “L”. Sendo uma fila no sentido de “Amandinho da Bicicleta ao Viagra” e a outra da “Venda de Sr. Lúcio a IFEMCOL”. As Barracas de Capeta ficariam em frente ao mercado.

Após pedido dos Barraqueiros (que reclamavam da localização em relação ao sol), o projeto foi alterado, trocando-se de local a segunda fila de barracas com os capetas.

O cadastramento, seleção e posicionamento das Barracas, não ficou a cargo direto do Departamento de Cultura, mas sim de uma comissão com representantes deste Departamento, da Secretaria de Serviços Públicos e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

Mercado

Entendemos o Mercado como um patrimônio público do nosso município, construído em três gestões municipais (Elpidio Nogueira, Oscar Santana e Elísio Santana), com obras de reformas e reestruturação realizadas por outras gestões (ver –
“O Mercado novo, de novo” em 10/07/2008).

E como valorizamos o Mercado, assim como outros monumentos da nossa cidade, resolvemos banhar-los com uma iluminação especial durante os festejos. Mercado, Praça da Cruz, Obelisco, Coreto – receberam iluminação.

Tamanho da Praça

Contratamos o mesmo técnico em edificações que fazia os projetos de ocupação do espaço da Praça no governo anterior. Ele trabalhou com as mesmas medidas das festas anteriores, no que se refere a distancia dos toldos, capetas e ambulantes, dos passeios. Assim não diferindo muito no espaço reservado para a circulação de pessoas.

Cortejo da Lavagem

Ainda em Dezembro, em reunião com a Charanga (banda), quando acertou-se todas as Alvoradas e iniciou-se a negociação para a tocata da Lavagem, foi discutido a questão do som baixo com relação ao grande público.

Os músicos pediram paciência, solicitaram que avaliássemos a “coisa de dentro” e no próximo ano, sugeríssemos as mudanças (as mais prováveis seriam aumentar o número de músicos ou colocar outra Charanga). De tal sorte, o acerto foi feito então para que mantivesse o mesmo número de músicos do ano anterior.

Realmente faltaram os sambas-de-roda no Cortejo. Falhamos no acerto prévio. E houve grupos que não puderam se apresentar. Contudo, três grupos de samba-de-roda de Irará se apresentaram em noites diferentes durante as Noveneiras.

Cruzeiro

Como já dito, aqui esteve nossa maior falha. Erramos na estrutura. Atrasamos na montagem da Festa e contratamos um Trio que decepcionou, e muito.

Vamos trabalhar para sanar esses erros ano que vem, quando o Cruzeiro vai poder acontecer na segunda-feira, já que o Feriado do dia 02 de Fevereiro será na terça.

* considerações pessoais
Foto: Guto Jads.

“De coração”

Bolo sem cereja ou cereja sem bolo? Coroação. Decoração nunca foi o nosso foco principal. Quem acompanha nossa trajetória sabe. Se ler “Brevitas Bravatas São João 2007”, nos tópicos “São João da Bandeirola” e “A cereja sem bolo”, (29/06/2007) vai perceber ainda mais.

Apesar disto, não desconhecemos a importância da Decoração (também tá lá dito no texto). Infelizmente o orçamento era apertado e entre economizar na Decoração ou na estrutura da Festa, preferimos a primeira opção.

Talvez se tivéssemos investido mais que o dobro do gasto, colocando os adereços em frente e verso nos braços de luz dos postes, o efeito fosse outro. A combinação entre o Desenho de Mãe Melânia (João Martins) e as Flores, Estandartes e Marca da Festa (Marcílio) ficou de uma beleza impar.

Não somos favoráveis aos “Pórticos” que impedem passagens de Trios e Mine-Trios (ver texto
Brevitas e Bravatas do São João – tópico “Arco do Triunfo – 17/07/2006). Quanto aos outros motivos de animação... Nunca foram nossa maior preocupação e também essa não é nossa formação e perfil.
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Se querem saber, apesar de todas as críticas, não acho que a arrumação da festa ficou aquém do que vinha sendo feito em Irará...


- Adereços nos Postes –
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2006 - Adereços nos braços de luz dos postes

2008 - "João Martins e Marcilio Cerqueira"

- Palco - Dia


2005 - Palco da primeira festa do Governo Juscelino


2009 - Palco da primeira festa do Governo Derivaldo

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- Palco - Noite
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2005 - Atração: Quântica

2009 - Atração: Margareth Menezes

Fotos:
1 - Sara Uchôa (Arquivo Pessoal)
2 - Roni
3 - Disponivel em www.irara.com
4 - Guto Jads
5 - Disponivel em www.irara.com
6 - Guto Jads

27.1.09

Noveneiras: música e cultura popular na Praça da Matriz

No centro da roda o "boi holandes" de Biu


Começaram no sábado passado, dia 24, as Noveneiras 2009. Esta etapa dos Festejos Populares de Irará consiste na apresentação de grupos de cultura popular e conjuntos musicais logo após o final das Missas da Novena dedicada a Nossa Senhora da Purificação.

O evento foi aberto com Asa Filho e o Reisado de São Vicente. Feliz por estar se apresentando em Irará, terra na qual se percebe um forte traço cultural, Asa Filho saudou a Filarmônica 25 de Dezembro e relembrou personagens iraraenses.

Asa também contou causos, mencionando as viagens de Irará à Feira com passagem por São Vicente, a localidade hoje nomeada de Tiquaruçu, distrito de Feira de Santana.

Depois foi a vez do iraraense Nilson Aquino assumir o palco. Agradecendo a oportunidade por poder se apresentar na terra natal acompanhado de seus músicos, Nilsinho apresentou o seu trabalho que “não é só Jeguerê”.

Assim Aquino deu ênfase à sua produção musical para além das conhecidíssimas faixas que produz para o tradicional bloco junino de Irará. Os hits do bloco, claro, foram tocados também.

No domingo foi a vez das participações do Bumba-meu-boi de Biu, da dupla Nildo e Gil e do Pagode Por Acaso. O público que se concentrava na frente do palco montado na Praça da Matriz demonstrava atenção e descontração aos “desengonçados” movimento do Boi de Biu.

Na seqüência as pessoas foram embaladas por sucessos da música popular, do sertanejo e do partido alto. Primeiro os violões de Nildo e Gil, dupla que costuma se apresentar no Kioske da Praça; depois o som do Grupo Por Acaso, formados por jovens iraraenses que surpreenderam a platéia.

O Pisadinha do Pé Firme abriu a noite da segunda-feira. Ao redor do grupo se formava uma grande roda para sambar e assistir a apresentação. Depois foi a vez do grupo JECASU mostrar a sua verve.

JECASU se destacou na atenção do público

Formado por Fábio Calisto (Clarinete e vocal) e mais dois amigos de Feira de Santana (vocal, violão e percussão) o JECA apresentou um repertório eclético. Teve choro, MPB, forró... e até “jingles” do carnaval. “Ah! imagina só... que loucura essa mistura”.

Alegria é o estado que se chama Bahia. E, sendo baiana, Irará não pode ser diferente. Após o momento de fé a cultura segue tomando conta da Praça. Tem Noveneiras ainda na terça, 27; na quarta, 28; e na quinta, 29.

As próximas atrações são: o samba-de-roda de Olhos D’água; Bumba-Boi de Pedrão (a confirmar); o Samba da Loja; Grupo Arranjos; Paulinho Jequié e Via Maré (ver programação completa abaixo).

Fica a expectativa da apresentação dos grupos populares e a curiosidade dos musicais. Só depois das apresentações é que boa parte do público vai poder avaliar o som meio bossa nova do Arranjos, a cantoria de Paulinho Jequié, e o pop do Via Maré.

As Noveneiras são uma iniciativa do Departamento de Cultura do Município. A intenção é criar um ambiente lúdico e comunitário na Praça da Matriz após o término de cada Missa do Novenário dedicado à Padroeira local.

O evento tem agradado em cheio à população. Já há solicitações para atrasar o transporte dos fieis da zona rural, na intenção de que eles só possam voltar para casa após apreciar um pouco mais do evento.

As Noveneiras seguem até quinta-feira, mesclando cultura popular e música na Praça da Matriz. Sempre interagindo a participação de grupos de Irará e de outras localidades. Veja programação abaixo:

Oque? Noveneiras.
Onde? Praça Matriz de Irará.
Quando? Sempre às 22h após a Novena até Quinta, dia 29.
Quem? Grupos de Irará e de outras localidades vide programação.


Programa:

Sádado, 24/01
Asa Filho e Reisado de São Vicente (São Vicente – Fsa)
Nilson Aquino

Domingo, 25/01
Bumba-meu-boi de Biu
Nildo e Gil

Segunda, 26/01
Pisadinha do Pé Firme
JECASU

Terça, 27/01
Samba de Olhos D’água.
Arranjos (Feira de Santana)

Quarta, 28/01
Bumba-Boi (Pedrão) – a confirmar.
Paulinho Jequié (Jequié)

Quinta, 29/01
Samba da Loja
Via Maré (Feira de Santana)

21.1.09

Marcas pra Irará


Adesivo que virou marca do Irará

Corria o ano de 1998. Numa dada noite, Marcílio chegou à minha casa decido a colocar em prática uma idéia, sobre a qual já havíamos discutido algumas vezes.

Irará precisava de uma marca; um símbolo; um adesivo de carro. Qualquer coisa destas, que fosse exclusiva e representante da cidade.

Há algum tempo atrás, o Banco do Brasil havia produzido adesivos com a frase “amo irará”. A letra “o” do “amo” era o logo do Banco.

Tratava-se de uma campanha publicitária daquela Instituição Financeira e, portanto, não exclusiva para mostrar amor a Irará, já que toda a cidade tinha o seu ”amo... “.

Topei o desafio. Sentamos em frente ao computador e começamos. Na época, eu fazia curso de corel draw em Feira de Santana e Marcílio andava meio preocupado.

Ele estava um pouco temeroso acerca de um possível futuro sombrio para as pessoas que, como ele, sabia desenhar no lápis e papel. Imaginou que com ferramentas como o Corel, todos – até mesmo os mais leigos do tipo eu – seriam capazes de começar a trabalhar com design gráfico.

Lembro-me de ter-lhe contestado. O computador e os seus softwares eram apenas ferramentas. Se serviam a quem não tinha o talento na área, imagine a quem já tinha...

O tempo me deu razão. Hoje, enquanto Marcilio manda ver em vários programas gráficos, muitos deles mais avançados do que o Corel, eu se quer tenho praticado ou lembro direito daquele bê-a-ba do curso de Feira.

Mas voltemos ao caso da marca. Tinha de nascer uma marca para Irará. Algo que a pessoas usassem como símbolo iraraense.

Marcilio lembrou-se da marca da gestão de Antônio Imbassahy na Prefeitura de Salvador. Era a torre de uma Igreja, edificação marcante na capital baiana. Começamos a lembrar de prédios do Irará.

Foi então decidido colocar marcos como o Obelisco, o Coreto, o Mercado, o Sobrado dos Nogueira, entre outros. Discutimos mais. “Irará - nascido da luz do sol”. “A Serra de Irará”. Entre idas e vindas, a imagem foi saindo.


Sugerir jogar um efeito “powerclip” e lá estava. Era a Serra, com sol nascente atrás, por dentro das letras do nome “Irará”. Na base do desenho, os monumentos iraraenses.

Como sempre flertando com a verossimilhança das coisas, recordo-me de ter lembrado que o sol poderia até se pôr, atrás da Serra, mas nunca nascer lá.

Marcilio, valendo-se da licença poética, típica dos artistas, mencionou que não haveria problema. Aquele poderia ser também um sol nascente.

Desenho ficando pronto, ainda faltava um slogan. Pensamos, sugerimos, discutimos. De repente, lasquei um: “Irará lugar melhor não há”. Pronto. Estava encaixado a frase.

Depois de um tempo, percebi que a dita cuja, já era uma frase usada no “Faroeste Caboclo” de Renato Russo, quando diz que o boiadeiro está “indo pra Brasília, neste país ‘lugar melhor não há’”.

Como diz a lei da física: “nada se cria, tudo se transforma”. Se cópia ou se adapta, a depender da ocasião e do gosto do freguês.

Imagem pronta, nós precisávamos conseguir um meio para a confecção dos adesivos, já que não tínhamos o dinheiro (situação que não é muito diferente hoje).




Rascunho do desenho "Irará lugar melhor não há"



Mecenas e campanha de arrecadação

Trocamos idéias com Zé Nogueira. Na época, Zé estava à frente da ACAAPI – Associação de Artesanato e Arte Popular de Irará. Associação ganhara apoio da Prefeitura e do Instituto Mauá para criar a Casa do Artesão, montada no antigo Quartel da cidade.

Como é sina em quase todas as instituições culturais, ainda com apoio da Prefeitura, a entidade carecia de recursos. Daí surgiu a idéia de unirmos o útil ao agradável. Deveríamos produzir os adesivos, vendê-los a um custo convidativo e repassar a renda para a ACAAPI.

Zé olhou o desenho e sugeriu que acrescentássemos o Prédio do Quartel entre os monumentos que apareciam no desenho. Acatamos a sugestão, afinal ali era a Casa do Artesão, gerida pela entidade para a qual faríamos a campanha.

Curioso foi perceber, tempos depois, que era justamente este prédio o marco que a maioria das pessoas não reconhecia do que se tratava.

Desenhos e metas definidas era preciso ter um mecenas para investir na idéia. Nem Zé, nem Marcílio e nem eu, tínhamos um “puto” no bolso.

Daí então Zé Nogueira buscou apoio. Ele fez o pedido junto à Professora Miriam, então presidente da Câmara de Vereadores e também admiradora da cultura do município.

O apoio foi dado. A Professora Miriam emprestaria um cheque para custear a confecção dos adesivos. Após a arrecadação da campanha pagaríamos o valor à Professora.

Assim foi feito. Adesivos prontos, campanha na rua. Mostrávamos os adesivos às pessoas. Todos admiravam o desenho e a idéia.

Alguns se empolgavam: “eu quero um, dois... ou melhor, outro e mais outro para levar pra fulano e sicrano”.

Só que quando falávamos que se tratava de uma campanha e que a pessoa ganharia um adesivo se contribuísse com R$ 1,00 (um real) para a ACCAPI, poucos levavam o “Irará lugar melhor não há” para casa.

Usei da palavra durante um “voz e violão” na Caverna – Bar Montado pelo Bloco Evolução em Frente ao Banco do Brasil. Expliquei a campanha, tá tá tá... e quase ninguém contribuiu. Quer dizer, acho que ninguém.

Mudamos de tática. Se no varejo não dava certo, pensamos no atacado. Deveríamos então sugerir que um comerciante ajudasse com um valor maior à ACAAPI e ficassem com um bom número de adesivos para presentear seus clientes.

Marcilio e Zé Nogueira foram à campo. Teve comerciante que comprou dois. Outro adquiriu quatro ou cinco. A mesma proposta foi feita a um gerente de Banco. Este ficou apenas com um e colou na vidraça da Agência Bancária.

No frigir dos ovos, a campanha não deslanchou. Nem sequer conseguimos cobrir o cheque da professora Miriam, que junto com suas filhas também atuavam na campanha.

Assim, os adesivos que sobraram foram sendo distribuídos, aos poucos, a um ou outro amigo ia pedindo, até que acabaram.

Sobre esta falta de “disposição” das pessoas em ajudar a ACAAPI, acabei escrevendo um texto, publicado na edição de número 2 do Evolução Zine (Panfleto informativo do Bloco tendo a redação e edição sob minha responsabilidade, enquanto Marcílio fazia cuidava da diagramação).

Com o título “Cultura de Irará é rica, mas vive pedindo esmolas”, abordei a questão de que todos falam que Irará é rico culturalmente, etc e tal, mas essa cultura vive sempre na penúria. No texto, argumentei a campanha da ACAAPI e seu fracasso.

Marcas do trabalho de uma dupla

Em contraste com o insucesso da campanha financeira, o adesivo pegou no Irará. A frase foi dita e repetida em palanques de festa.

Pessoas começaram a copiar o desenho para sites de internet e outros trabalhos. A imagem do adesivo inspirou painéis escolares. A Prefeitura fez dela ilustração para a camisa na época da Lavagem.

As pessoas pediam muito para ter nos seus carros. O adesivo virou identificador para aqueles que queriam viajar em transporte alternativo e não tinham certeza sobre a naturalidade iraraense do motorista.

Virou mesmo marca do Irará e até hoje, vez por outra, se ver algum por aí.

Muitos destinaram a autoria do trabalho ao Mestre Zé Nogueira. Afinal, Zé que é o artista e o mais conhecido entre nós. Marcilio e eu, não tínhamos maiores experiências no cenário cultural do Irará.

Dali em diante é que começamos a aparecer mais. Fizemos trabalhos como R&MP (Roberto e Marcilio Publicidade). Elaboramos o projeto gráfico para o CD da Banda Evolução, entre outros.

Atuamos no Bloco Evolução. Assumimos a Casa da Cultura. Criamos, junto com Rodrigo Martins (Capita), a Charanga Comunicação. Os desenhos de Marcilio e os meus textos também estiverem no Jeguerê e no Capita Folia. E atuamos também em campanhas eleitorais.

Outro dia, quando estava lendo “Na Toca dos Leões”, livro no qual Fernando Morais conta a história de Washington Olivetto e da W/Brasil, percebi o quanto é importante no meio publicitário o entrosamento da dupla “Diretor de Arte e Redator”. Foi legal perceber que nós, de alguma maneira, já trabalhávamos assim.

Folderes, panfletos, internet... enfim, varias mídias. Isso virou quase rotina. O que estava sendo incomum era sentarmos juntos para elaborar uma marca. Oportunidade que tivemos agora no final deste ano.

Diante do pedido do então Prefeito Eleito, Derivaldo Pinto, de criarmos um slogan e marca para o seu governo, indo no sentido do Governo Federal, “Brasil: um país de todos”, nos vimos, dez anos depois, outra vez na frente do computador para criar uma marca para Irará.

Pensamos no slogan que o Publicitário Zé Armando, a serviço da Link Propaganda, usou para a campanha de Nelson Pelegrino: “Salvador pra toda gente”. Fomos ao dicionário e confirmamos a aplicação da frase.

Aos poucos o desenho foi saindo. Idéia daqui. Idéia dali. Troca cor. Muda a localização do ícone... E lá estávamos.

O resultado final ficou satisfatório. Irará, “nascido da luz do sol”, tem o sol como ícone do seu governo. Além disso, vale a máxima popular que lembra que “o sol nasce pra todos”, sem distinção de raça, credo, cor... Ao meu ver, ilustração adequada a um governo que se pretende “pra toda gente”.

O tom colorido da marca também remete à diversidade presente na mesma. Pessoas Diversas, pensamento diversos na elaboração de uma política em prol do município. Ainda tem a mescla entre letras maiúsculas e minúsculas. Grandes e pequenos também representados.

Agora fica o pensamento, a torcida, a fé e a nossa parcela de responsabilidade para com este governo que se inicia.

Em se conseguindo ser mesmo um governo justo “pra toda gente” em todas as suas estruturas, quem sabe, não teremos sinceridade e orgulho recorrente pra dizermos: “Irará lugar melhor não há”.

Marca do novo governo municipal