30.7.14

Construção de Mersinho faz Jilú permanecer

Sentimos dor, quando perdemos as pessoas para a existência. 

Conforta lembrar que a memória fica. No entanto, ela é uma espécie de existência com prazo de validade. 

A memória é passível de falhas. E, qualquer dia destes, também há de ir junto conosco... 

Carrego dores. Angústias por pessoas para as quais não fiz registros. E, me sinto pequeno, para grafar memórias tardias. Medo enorme de falhar. 

Principalmente para com os meus. Assusta-me ainda a possibilidade de parecer presunçoso. Um tipo de coruja gabando o toco. Receio de criar um produto não merecedor de crença analítica por quem leia. 

Hoje diante da notícia da morte de Jilú, pensei um pouco nisto. Pensei o quanto Mersinho foi apaixonado e corajoso com o seu: “A Construção – Histórias do Mestre Januário”. 

Lembrei da época em que Mersinho labutava na construção do seu livro. Da empolgação dele de, não só contar sobre a obra e as histórias do avô, mas como também de levar pessoas até a casa se Jilú. 


Ao lado do Mestre Januário em visita à casa dele

Tive a sorte de ser um destes privilegiados visitantes. Na casa de Jilú além de histórias, como a curiosa passagem de Luis Gonzaga num circo em Irará, ainda descobrir engenhocas. 

Estava lá um complicado “quebra-cabeça” que, feito pelo próprio Jilú com alguns pedaços de gravetos, para mim, foi impossível desarmar.

Quando o livro de Merso ficou pronto, tivemos a honra de lançá-lo durante o Colóquio de Literatura Popular de 2008. Evento produzido pela Casa da Cultura, quando estávamos por lá. 

Para felicidade de todos, o velho Jilú se fez presente. Foi vestido a caráter, para a noite de autógrafos do neto, no lançamento da obra na qual ele era o personagem de centro. 

Jilú, ao centro, em noite de autógrafos de "A construção..."

Recentemente pude ler e ouvir relatos da dedicação constante de Mersinho a Jilú. Fosse para “chamar o doutor” ou para dá banhos. Mãos à obra. 

Se a canção perguntar, talvez a resposta seja rápida. Ao merecer tanto carinho daquele neto, Jilú, como mestre de obras que foi, deixou muito mais do que tijolos no muro.

No dia de ontem Jilú passou. Um dia, pode ser daqui a cem anos, Mersinho também passará. Mas em algum canto, algum dia, alguém pode encontrar um exemplar daquele livro. E quem ler saberá das histórias do Mestre Jilú, graças a seu neto dedicado e atencioso. 

Mersinho e seu livro "A Construção - Histórias de Mestre Januário"




Imagens: 
Roberto e Januário por Emerson Nogueira
Januário e convidados e Mersinho com Livro por Katiene Suzart

7.12.13

O teatro e o faz-de-conta

Durante muito tempo desejei e imaginei que as situações e acontecimentos fossem vistos e descritos como são. Ledo engano. As pessoas gostam mais do que “parece ser”. Fogem do que “é”. 

Agora eu sei um dos motivos do meu fascínio pelo teatro. O teatro, para usar um termo dito por Cazuza em uma canção, é uma “mentira sincera”. E as “mentiras sinceras” também me interessam. 

O teatro não falseia, falseando. Ele se apresenta, logo de cara, como uma “encenação”. Fica implícito, como em um acordo tácito com o espectador, que ali não está o que é real. 

No entanto, através da verossimilhança, o teatro nos mostra uma realidade óbvia. E que, por tão, mais tão, visível, estava oculta. 

A arte teatral denuncia a hipocrisia humana. Desmascara os jogos de cena. 

Muitos costumam ir ao teatro para rir ou chorar da própria miséria. Outros tantos o freqüentam porque desejam apurar o olhar crítico para com a realidade. 

O teatro do qual falei até aqui é o artístico. Ele é bem diferente do teatro do dia-a-dia. 

O teatro do cotidiano é o faz-de-conta. Pessoas simulam situações, se fazem de personagens, vestem fantasias hipotéticas, entre tantos outros artifícios, na intenção de “parecer ser”.

Vale de tudo. O desejo é não ficar de fora do grupo social. Não parecer em desvantagem, com relação ao outro. Se apresentar como superior.  Torna-se uma pessoa a ser invejada, copiada, admirada. 

E neste contexto, as redes sociais, principalmente o Facebook (a mais usada entre os brasileiros) são o paraíso na terra. 

Com isto, potencializa-se uma sociedade doente pelo consumismo e as aparências. Vive-se um ciclo vicioso. Tal e qual é apresentado no filme “Beleza Americana”, cujo desfecho mostra justamente a condenação de quem quis se rebelar contra esse mal. 

Precisamos de mais reflexão e menos fantasia. Mais teatro e menos faz-de-conta. 

Triste do local, onde não se faz e nem se assisti teatro.

2.12.13

CHAMA O DR.

Texto escrito por  EMERSON NOGUEIRA - MERSINHO 

Mestre Januário no seu cantinho habitual  

Nos altos dos seus 92 o velho Januário precisou de um reparo. Foi quando Juvam da Pisadinha gritou: chama o Dr rapaz.  

- Já o levei duas vezes essa semana no hospital e passaram medicamentos. 

- Que nada, esses médico novo, hum..humm...

Era final da tarde de domingo 27/10/2013. Chegando ao antigo casarão bati algumas palmas.... Logo o Dr. abriu a porta, então apresentei-me e fiz questão de desculpar-me pelo incômodo. Fui tão cauteloso que não deixava nem o Dr. falar. Foi quando respondeu sorrindo: 

- Para, para, para não precisa de discurso, eu não to mais fazendo esse tipo de atendimento, mais como é Mestre Januário vou abrir uma exceção”.

Naquele momento percebi a conhecida irreverência do grande cidadão Iraraense. Mandou-me esperar enquanto preparava a maleta. Eu não estava sozinho, os amigos Roberto Aranha e Emerson estavam de prontidão para dar aquele necessário tombo.

Chegando a roça lembrei-o dos tempos de chegança naquele terreiro. O velho deu um breve sorriso. Fomos até o quarto onde os amigos se reencontraram. Tiveram uma pequena prosa, daí fiquei a observar o andamento da consulta.


Encontro entre Dr. Deraldo e Mestre Januário 

Foram muitas perguntas, até que Mestre Jilú disse ao Dr. que achava que tava era de “olhado”.  O Dr. pensou alguns segundos e revelou mais uma nota do seu rico repertório. Disse que sabia rezar olhado e perguntou se ele tinha fé. Logo pediu umas folhas de vassourinha e começou a rezar. Ao lado botei a mão no bolso e vi que também tinha um bom instrumento para orquestrar. Foram alguns minutos inesquecíveis. 

Dr. Deraldo reza Mestre Januario 

No outro dia o velho levantou. Já sentado em seu habitual cantinho, perguntei como ele estava. Respondeu: “ tô aqui teimando”. Neste momento observei uma cena que refletia a continuação. Muitas vezes há de haver um fim, mas haverá sempre um recomeço. O velho e o novo estavam em movimentos parecidos. Que estejamos preparados para um novo amanhecer, e que jamais há de esquecermos o mais velho dos doutores, o Deus da vida.


O velho e o novo, Januario e seu bisneto Cauã


Veja o Vídeo de Dr. Deraldo rezando o Mestre Januário 





Mercinho, 02/12/2013

6.11.13

Dia D Drummond...

Carlos Drummond de Andrade, “poeta que cantou o amor, denunciou a miséria, chorou a crueldade humana. Ao mesmo tempo realista, moderno e lírico”. Conforme noticia do Blog “Bula Revista”, do Portal R7, Drummond “ganhou o Dia D, inspirado no Bloomsday, o dia dedicado ao escritor irlandês James Joyce. A data, 31 de outubro, aniversário do poeta [nascido em 31/10/1902 – falecido em 17/08/1987], é comemorado no Brasil e em Portugal. 

Abaixo dois poemas de Drummond:         

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

10.10.13

Deixai vir a criancinha de dentro de ti

Já ouvi dizer que toda criança é egocêntrica.  Por isso, ela pensa ser o centro do universo, imaginando-se a razão do existir de tudo à sua volta. 

Não sei se de fato toda criança pensa assim. Só lembro que no meu tempo de infância, pensava que ao menos uma coisa nós tínhamos para chamar de nossa. Um feriado. 

Depois, antes mesmo de ficar adulto, ainda pré-adolescente, descobri que o descanso do  “12 de Outubro” não era por razão das crianças, mas sim por uma santa. Era mais um feriado católico. 

A proximidade da data me trouxe esta lembrança e uma reflexão: Que importância tem crianças em um mundo governado por adultos? 

Elas são cada vez mais tratadas como “adultos em miniaturas”. “Bota a maquiagem”; “diz quem é a tua namoradinha”; “pinta e bota roupinha sexy”. Em geral, acham-se tudo muito lindo. Tendemos a gostar de miniaturas; tem gente que coleciona. 

Até mesmo como público reduziu-se os espaços para as crianças. Minguaram os programas de TV direcionados para os infantis. Já não ouvimos mais grupos musicais de meninos e/ou meninas como no passado. 

Restam-lhes os programas e as músicas “adultas”. E como o HD dos pequeninos tem bastante espaço livre, “aprendem rapidinho”. Há quem ache graça.

Estamos “adulterando” as crianças, quando deveríamos “infantilizar” um pouco mais os adultos.
E “infantilizar” não quer dizer “abobá-los”. Longe disso. É torná-los mais infantis, para serem mais sinceros, puros, alegres, irreverentes, generosos...

Gonzaguinha nos disse que “fica com a pureza das respostas das crianças”, porque é bonita, e é bonita, é bonita. Cazuza nos perguntou se já tínhamos reparado “na inocência cruel das criancinhas”, porque elas “advinham tudo” e “sabem que a vida é bela”. E lá nos fins dos anos 1970, Roberto Ribeiro cantava que “todo menino é um Rei”. 

E menino é Rei que desafia Rei. Lembrem-se da fábula. O menino não teve pudores de anunciar que o rei estava nú. Antes, todos já tinham percebido, mas ninguém tivera coragem de denunciar o despimento da majestade. 

Neste ano de 2013, o livro O Pequeno Príncipe, do francês Saint-Exupéry, completa 70 anos de lançamento. Este Best Seller da literatura mundial traz uma reflexão, através dos sonhos e questionamentos de uma criança, nos mostrando a valorosa importância de coisas simples, as quais deixamos de lado quando nos tornamos adultos. 

Jesus Cristo pediu que deixasse ir até ele as criancinhas. E é isto que todos devem fazer. Ao invés de sufocar, deixai vir à tona a criança que há dentro de si. 

19.8.13

Torcedores organizam “selinhozaço” em apoio a Emerson Sheik – “Quem apóia e elogia, participa!”*

Enquanto muitos torcedores do Corinthians protestam contra o jogador Emerson Sheik, por ter postado uma fotodando um selinho em um amigo, cresce também o número dos que apóiam a atitude do corinthiano. De acordo informou um líder de torcida, que pediu para não ser identificado, o gesto de apoio será massivo e virá de torcedores de vários clubes do país. Segundo o referido líder, em apoio ao Sheik, os torcedores já organizam um grande “selinhozaço” nas redes sociais. A ação, prevista para acontecer no próximo sábado, 24, consiste na postagem de fotos de homens dando selinhos em amigos e/ou namorados. “Não importa se você é homo, não importa se você é hetero, quem apóia e elogia a atitude do Sheik, participa. Porque apoio se mostra com atitude e não só com palavras”, declarou o torcedor, convicto de que agora, as redes sociais vão “pipocar” de homens dando selinho.  


*Isso é quase um Piauí Herald 

16.7.13

Confere! Conferência.

Confere, Confere, Confere... Conferência! Lembra bingo. Um monte de gente acompanhando, marcando e conferindo, sob o sol, no chão da praça. De cima do palanque, alguns conduzem o evento, para apenas uns poucos ganharem os prêmios. Conferências seriam mais válidas se fossem “deliberativas”. Quando o que lá é decidido tem força de Lei. E a gestão pública é obrigada a cumprir sob a vigilância da justiça. Enquanto a Conferência for apenas “Consultiva” não é de maior valia o seu significado. É colheita de opiniões. Às quais serão executadas, ou não, a bel prazer do gestor em exercício. Há muitos exemplos. E o povão segue na praça fazendo número, marcando a pedra cantada por quem tem o microfone e a situação nas mãos. E ainda por cima, validando o sistema, balançando a cabeça e repetindo: “confere, confere, confere!”.